Monday, May 01, 2006

Tem dias em que me permito a melancolia. Aquele ranso de quietude. Ruminações, barbaridades insanas. Uma espécie de anestesia voluntária. Seria melhor continuar em silêncio, sem nem escrever. A escrita sai melancólica, e até o silêncio é barulhento. Frente a estantes de livros, pinçamos instantes insosos, livros que nunca leríamos. E o café, até esse é sem gosto. Mas a melancolia sim. Essa fica com gosto de melancolia, e às vezes pode. Não sempre. Tem dias que sim, está ali, ela mesma, afrontando o turno da tarde. E a deixamos ficar. Nos visita e vai embora. Vem com o frio, o vento, o barulho da rua. Barulho dos livros, na livraria. Barulho da xícara no pires, ao terminar o café. Barulho: assim mesmo. Quebra nosso silêncio, irrompe nosso despertar, deita conosco para dormir. E a melancolia é assim. Deixo ficar por ali, uns minutos. Com esse nublado do céu. Dia seguinte, que vá. Não seja perene, constante. Que visite, isso sim. Tem dias em que me permito a melancolia.
Betina Mariante Cardoso

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