Silêncio da Noite
Betina Mariante Cardoso
Pois deixe que me apresente. Posso dizer que sou moça diurna, de pouca idade, qualquer coisa entre os vinte e os trinta anos. O escuro não me apraz, embora tenha escolhido a noite para meu ofício. Por puro capricho, tão acostumada, que estava, com as horas do dia. Queria conhecer parte de mim que se escondia no breu. Sou desenhista de mapas de cidades, dedico-me em especial aos locais turísticos, situando o visitante nos quarteirões históricos e nas belas paisagens. Que imagino.
Confesso. Minto na maior parte dos meus desenhos. Mudo escalas e inverto os pontos cardeais. Não uso legendas, apenas desenhos artísticos das casas, museus, igrejas, praças. Muitos sujeitos, seguindo meus mapas, perderam-se, encontrando belezas fora do plano de viagem. Outros, descobrindo que menti, deixaram o mapa no banco do parque, e seguiram sozinhos a aventura. Já soube de alguns que se esqueceram de usá-lo, ou que nem sabiam como fazê-lo, e o guardaram como recordação. Com o tempo, entendi que meus desenhos bastam apenas para lembrar o viajante de onde está, deixando que descubra as escalas e medidas de seu itinerário. De si, a cada trecho. Nada de mal nisso.
Calculo com perfeição as distâncias, para fazer com que o turista se engane: caminhe à esquerda quando o museu será à direita, ande dez quadras quando o mapa aponta que são cinco. Travessuras. Desenho passantes em meus mapas, lojas de antiguidades que não mais existem, artefatos como luminárias antigas para produzir fantasias. A cada mapa, sinto o prazer de inventar histórias, as minhas. Eu, que nunca saí de minha cidade natal. Que trabalho nas horas claras e durmo nas escuras. Num sempre. Eu, de rotinas regulares. Eu, que sigo, aritmética, os ponteiros do relógio. Que conheço os rostos tingidos pela luz do dia, com todas as rugas e olhares, nítidos demais. Que conheço os riscos das folhas, retos, abrindo-se em praças circulares. Sempre. Eu, que desconheço a sombra.
Conto minha desventura, agora que me apresentei. Recebi encomenda para um mapa de um lugar estranho, de todo. Não turístico, não de negócios, nada de especial. Viagem marcada, disse-me o senhor que telefonou, de voz densa. Mês que vem. Os outros trabalhos deixei à deriva, na gaveta. Dedicação plena. Prazo, cronograma. Ponteiros precisos, insidiosos no aviso do tempo. Lápis coloridos, réguas de escalas, largas folhas, luz direta.
Por primeiro, estudei a cidade. Recorri a bibliotecas, Internet, jornais e revistas, todas as fontes. Não encontrei ninguém que tivesse visitado aquele lugar, que me pudesse contar algum fato, algum personagem típico, ou qualquer hábito corriqueiro. Nenhum crime sequer, nem romance ardente. Nada. Tinha dados objetivos, como a rua de negócios, a casa do prefeito, a praça, a Igreja, o Clube. Tudo era próximo. Sem imaginação. Sem história. Sem ruas a descobrir, ou qualquer lugarejo que fizesse o senhor lembrar de sua visita. O que, pela entonação de sua voz, não parecia fazer diferença.
Meu primeiro desenho real. A praça onde ela é, de fato. Casas em fileira, tons cinzentos, envelhecidos. Ausência do belo ou do inusitado. Ofício em linha reta, categórico. Eu, triste, em linha reta. Categórica.
E foi quando me dei conta de que era o momento de conhecer a noite. Mergulhar nela, regozijar-me do silêncio que oferece. Quem sabe pela aventura em atravessar-me, feito meus mapas. Acreditava na escuridão, ainda. No olhar adormecido das janelas vizinhas, no silêncio soberbo que encobre a passagem das horas pela madrugada. Sentia seu pulsar. O respiro da madrugada talvez inspirasse meu feito. Queria ver-me sozinha no escuro, acompanhada apenas pela luz fraca do abajur; em silêncio, ver surgir minha face insana.
Deveria desenhar às cegas. Em mim, o empuxe por desnortear-me, sem relógios ou bússolas. Que se danasse a cidade, o mapa, o senhor e sua visita burocrática. Não, não haveria sobre o que mentir, dessa vez. Nem qualquer gente com quem ele fosse conversar, nos arredores. Todos em solilóquio, em seu pedaço de rua.
Comecei o trabalho. O escuro foi impetuoso, desde o início. A volúpia pela cafeína, o afã de um percurso insólito, a pouca luz. Sentia-me rasgando com o corpo todo a passagem do tempo. Sujava-me toda com a tinta. A angústia daquela atmosfera enlouquecia meus braços e mãos, minhas pernas e tronco, que pintavam, ventríloquos, no branco da folha. Eram gritos de quietude, tantas as tintas que se esparramavam, silenciosas, sem qualquer ordem. Não havia mais linhas retas, círculos, casas corriqueiras. Imergi no vão do papel, onde tudo era cor, e só a noite em torno. Nenhuma notícia do mundo, nem das redondezas. O negro da hora emoldurado pela janela de madeira. Lá fora, nenhuma luz. A loucura chegando, enquanto eu procurava afastar-me de sua sombra. Buscava sons, aumentava as luzes, falava alto, espantando o monstruoso silêncio, que me surpreendia com seus urros. Percebia a ausência do mundo desperto. O sono chegava-me: sempre a taça de café.
A sala tornou-se um amontoado de folhas. Espalhei-me pelos mapas, dormindo, acordando, entardecendo-me para nova jornada e despertando, em fúria, para a escuridão. Era quando o mapa tornava-se curvo, ilógico, sem réguas ou cores primárias.
Descobri na primeira semana: tenho a noite no sangue.
Um mês, era o tempo para a entrega. Os primeiros dias foram de toda a ebulição, minhas carnes tomavam-se de movimento, atirava-me por sobre a tarefa, desperta, e ali não eram meus mapas, mas largas folhas com tinta esparramada. Os desenhos tornaram-se riscos, manchas, nós de cores. Os dias passavam, e a vigília, coberta pela névoa de inverno, trazia o hábito. A noite, então, circulava por mim e centrifugava-se em manhã, enquanto eu pintava. Eu era a loucura e era a noite e era a morte, quando deixava o pincel na folha e abandonava-me com ele por sua extensão. Não se via, porém, qualquer cidade, qualquer anúncio de um lugar que lembrasse a encomenda.
Mas o homem veio bater na porta, eram quase três da tarde, no meio do mês. O senhor da encomenda. Fechei a porta do atelier. Ele quis ver os mapas, disse que precisava estudar a localidade, preparar-se. Pegou-me de surpresa, isto sim. Queria programar o trajeto matutino até a prefeitura, e de pronto respondi que eram duas quadras à esquerda de quem chega na cidade, onde fica o hotel. Olhou-me, estupefato, e anotou, ainda elogiando minha memória. Perguntou da Igreja, para a Missa Domenical, e respondi que era visível do quarto do hotel, nos segundo andar, onde estavam os melhores aposentos. Saberia orientar-se. Indagou sobre a praça, a casa do prefeito, e assim por diante. As perguntas era corriqueiras como ele, previsíveis. As respostas, eu deixava que saltassem ao improviso. Mentiras ditas, as mesmas que desenhava nos mapas. Anotou tudo.
Ofereci-lhe um café enquanto conversávamos, ao que respondeu que não poderia aceitar, por ordens médicas. Suas falas eram quase soletradas, eu podia enxergar as letras, uma a uma, saindo de sua boca, em cantilena, um peso de chumbo. Moroso no jeito de falar, sensação que ecoava por toda a sala. Não me admirava que fosse conhecer aquela cidade insosa. Foi embora, fazendo um gesto cordial com o chapéu, num tom de “passar bem”, e repetiu que tornaria ali para buscar os mapas, no dia combinado. Em mim, o suor frio. Restavam-me duas semanas pra os mapas. Quatorze noites.
Há pouco, mencionei o hábito que a vigília me trouxera. Pois bem. O furor com que enlouquecera nas primeiras noites arrefeceu-se, e passei a desenhar o mapa para o sujeito, tal qual lhe havia dito em nosso encontro. A prefeitura a duas quadras à esquerda de quem chega na cidade, a igreja na altura do segundo andar do hotel, e todas as definições improváveis que referi, como quem conhece o lugar, com a intimidade de quem já dormiu em suas camas.
Terminei no dia combinado. Os rascunhos, mapas de minha loucura, guardei no armário de parede, que tinha uma tranca. Há quem possa perguntar das noites seguintes, se domestiquei o furor dos pincéis e tornei-me fidedigna ao traçado da cidade. Respondo. Fiz um mapa como os anteriores, desenhei os pontos conforme minhas mentiras, Nenhum norte-sul-leste-oeste. Nada. Sem cores, fiz tudo em nanquim. Ninguém nas ruas, cidade deserta de gentes, só ele e sua voz. Grossa, retumbante, abafada. No trajeto do hotel à prefeitura, fiz setas, bem como do segundo andar do hotel até a igreja. Numa cidade de quatro quadras, não se perderia. Foi-se o homem, em passos retos pelo corredor.
Semanas depois da entrega, retornou à minha casa, de cenho cerrado. Olhos ainda mais negros, queixo em desalinho, talvez pela aspereza que esboçava na face, e uma lástima nos riscos da testa. Estremeci. Disse-me que a cidade era mesmo como o mapa, localizou-se bem. Bom trabalho. Mas não era o que queria. Desejava era aquelas pinturas largas, coloridas, de folha inteira, que, à espreita, espiara-me pintando com o corpo nu nas noites da primeira quinzena.
Betina Mariante Cardoso
Pois deixe que me apresente. Posso dizer que sou moça diurna, de pouca idade, qualquer coisa entre os vinte e os trinta anos. O escuro não me apraz, embora tenha escolhido a noite para meu ofício. Por puro capricho, tão acostumada, que estava, com as horas do dia. Queria conhecer parte de mim que se escondia no breu. Sou desenhista de mapas de cidades, dedico-me em especial aos locais turísticos, situando o visitante nos quarteirões históricos e nas belas paisagens. Que imagino.
Confesso. Minto na maior parte dos meus desenhos. Mudo escalas e inverto os pontos cardeais. Não uso legendas, apenas desenhos artísticos das casas, museus, igrejas, praças. Muitos sujeitos, seguindo meus mapas, perderam-se, encontrando belezas fora do plano de viagem. Outros, descobrindo que menti, deixaram o mapa no banco do parque, e seguiram sozinhos a aventura. Já soube de alguns que se esqueceram de usá-lo, ou que nem sabiam como fazê-lo, e o guardaram como recordação. Com o tempo, entendi que meus desenhos bastam apenas para lembrar o viajante de onde está, deixando que descubra as escalas e medidas de seu itinerário. De si, a cada trecho. Nada de mal nisso.
Calculo com perfeição as distâncias, para fazer com que o turista se engane: caminhe à esquerda quando o museu será à direita, ande dez quadras quando o mapa aponta que são cinco. Travessuras. Desenho passantes em meus mapas, lojas de antiguidades que não mais existem, artefatos como luminárias antigas para produzir fantasias. A cada mapa, sinto o prazer de inventar histórias, as minhas. Eu, que nunca saí de minha cidade natal. Que trabalho nas horas claras e durmo nas escuras. Num sempre. Eu, de rotinas regulares. Eu, que sigo, aritmética, os ponteiros do relógio. Que conheço os rostos tingidos pela luz do dia, com todas as rugas e olhares, nítidos demais. Que conheço os riscos das folhas, retos, abrindo-se em praças circulares. Sempre. Eu, que desconheço a sombra.
Conto minha desventura, agora que me apresentei. Recebi encomenda para um mapa de um lugar estranho, de todo. Não turístico, não de negócios, nada de especial. Viagem marcada, disse-me o senhor que telefonou, de voz densa. Mês que vem. Os outros trabalhos deixei à deriva, na gaveta. Dedicação plena. Prazo, cronograma. Ponteiros precisos, insidiosos no aviso do tempo. Lápis coloridos, réguas de escalas, largas folhas, luz direta.
Por primeiro, estudei a cidade. Recorri a bibliotecas, Internet, jornais e revistas, todas as fontes. Não encontrei ninguém que tivesse visitado aquele lugar, que me pudesse contar algum fato, algum personagem típico, ou qualquer hábito corriqueiro. Nenhum crime sequer, nem romance ardente. Nada. Tinha dados objetivos, como a rua de negócios, a casa do prefeito, a praça, a Igreja, o Clube. Tudo era próximo. Sem imaginação. Sem história. Sem ruas a descobrir, ou qualquer lugarejo que fizesse o senhor lembrar de sua visita. O que, pela entonação de sua voz, não parecia fazer diferença.
Meu primeiro desenho real. A praça onde ela é, de fato. Casas em fileira, tons cinzentos, envelhecidos. Ausência do belo ou do inusitado. Ofício em linha reta, categórico. Eu, triste, em linha reta. Categórica.
E foi quando me dei conta de que era o momento de conhecer a noite. Mergulhar nela, regozijar-me do silêncio que oferece. Quem sabe pela aventura em atravessar-me, feito meus mapas. Acreditava na escuridão, ainda. No olhar adormecido das janelas vizinhas, no silêncio soberbo que encobre a passagem das horas pela madrugada. Sentia seu pulsar. O respiro da madrugada talvez inspirasse meu feito. Queria ver-me sozinha no escuro, acompanhada apenas pela luz fraca do abajur; em silêncio, ver surgir minha face insana.
Deveria desenhar às cegas. Em mim, o empuxe por desnortear-me, sem relógios ou bússolas. Que se danasse a cidade, o mapa, o senhor e sua visita burocrática. Não, não haveria sobre o que mentir, dessa vez. Nem qualquer gente com quem ele fosse conversar, nos arredores. Todos em solilóquio, em seu pedaço de rua.
Comecei o trabalho. O escuro foi impetuoso, desde o início. A volúpia pela cafeína, o afã de um percurso insólito, a pouca luz. Sentia-me rasgando com o corpo todo a passagem do tempo. Sujava-me toda com a tinta. A angústia daquela atmosfera enlouquecia meus braços e mãos, minhas pernas e tronco, que pintavam, ventríloquos, no branco da folha. Eram gritos de quietude, tantas as tintas que se esparramavam, silenciosas, sem qualquer ordem. Não havia mais linhas retas, círculos, casas corriqueiras. Imergi no vão do papel, onde tudo era cor, e só a noite em torno. Nenhuma notícia do mundo, nem das redondezas. O negro da hora emoldurado pela janela de madeira. Lá fora, nenhuma luz. A loucura chegando, enquanto eu procurava afastar-me de sua sombra. Buscava sons, aumentava as luzes, falava alto, espantando o monstruoso silêncio, que me surpreendia com seus urros. Percebia a ausência do mundo desperto. O sono chegava-me: sempre a taça de café.
A sala tornou-se um amontoado de folhas. Espalhei-me pelos mapas, dormindo, acordando, entardecendo-me para nova jornada e despertando, em fúria, para a escuridão. Era quando o mapa tornava-se curvo, ilógico, sem réguas ou cores primárias.
Descobri na primeira semana: tenho a noite no sangue.
Um mês, era o tempo para a entrega. Os primeiros dias foram de toda a ebulição, minhas carnes tomavam-se de movimento, atirava-me por sobre a tarefa, desperta, e ali não eram meus mapas, mas largas folhas com tinta esparramada. Os desenhos tornaram-se riscos, manchas, nós de cores. Os dias passavam, e a vigília, coberta pela névoa de inverno, trazia o hábito. A noite, então, circulava por mim e centrifugava-se em manhã, enquanto eu pintava. Eu era a loucura e era a noite e era a morte, quando deixava o pincel na folha e abandonava-me com ele por sua extensão. Não se via, porém, qualquer cidade, qualquer anúncio de um lugar que lembrasse a encomenda.
Mas o homem veio bater na porta, eram quase três da tarde, no meio do mês. O senhor da encomenda. Fechei a porta do atelier. Ele quis ver os mapas, disse que precisava estudar a localidade, preparar-se. Pegou-me de surpresa, isto sim. Queria programar o trajeto matutino até a prefeitura, e de pronto respondi que eram duas quadras à esquerda de quem chega na cidade, onde fica o hotel. Olhou-me, estupefato, e anotou, ainda elogiando minha memória. Perguntou da Igreja, para a Missa Domenical, e respondi que era visível do quarto do hotel, nos segundo andar, onde estavam os melhores aposentos. Saberia orientar-se. Indagou sobre a praça, a casa do prefeito, e assim por diante. As perguntas era corriqueiras como ele, previsíveis. As respostas, eu deixava que saltassem ao improviso. Mentiras ditas, as mesmas que desenhava nos mapas. Anotou tudo.
Ofereci-lhe um café enquanto conversávamos, ao que respondeu que não poderia aceitar, por ordens médicas. Suas falas eram quase soletradas, eu podia enxergar as letras, uma a uma, saindo de sua boca, em cantilena, um peso de chumbo. Moroso no jeito de falar, sensação que ecoava por toda a sala. Não me admirava que fosse conhecer aquela cidade insosa. Foi embora, fazendo um gesto cordial com o chapéu, num tom de “passar bem”, e repetiu que tornaria ali para buscar os mapas, no dia combinado. Em mim, o suor frio. Restavam-me duas semanas pra os mapas. Quatorze noites.
Há pouco, mencionei o hábito que a vigília me trouxera. Pois bem. O furor com que enlouquecera nas primeiras noites arrefeceu-se, e passei a desenhar o mapa para o sujeito, tal qual lhe havia dito em nosso encontro. A prefeitura a duas quadras à esquerda de quem chega na cidade, a igreja na altura do segundo andar do hotel, e todas as definições improváveis que referi, como quem conhece o lugar, com a intimidade de quem já dormiu em suas camas.
Terminei no dia combinado. Os rascunhos, mapas de minha loucura, guardei no armário de parede, que tinha uma tranca. Há quem possa perguntar das noites seguintes, se domestiquei o furor dos pincéis e tornei-me fidedigna ao traçado da cidade. Respondo. Fiz um mapa como os anteriores, desenhei os pontos conforme minhas mentiras, Nenhum norte-sul-leste-oeste. Nada. Sem cores, fiz tudo em nanquim. Ninguém nas ruas, cidade deserta de gentes, só ele e sua voz. Grossa, retumbante, abafada. No trajeto do hotel à prefeitura, fiz setas, bem como do segundo andar do hotel até a igreja. Numa cidade de quatro quadras, não se perderia. Foi-se o homem, em passos retos pelo corredor.
Semanas depois da entrega, retornou à minha casa, de cenho cerrado. Olhos ainda mais negros, queixo em desalinho, talvez pela aspereza que esboçava na face, e uma lástima nos riscos da testa. Estremeci. Disse-me que a cidade era mesmo como o mapa, localizou-se bem. Bom trabalho. Mas não era o que queria. Desejava era aquelas pinturas largas, coloridas, de folha inteira, que, à espreita, espiara-me pintando com o corpo nu nas noites da primeira quinzena.